Música

BONO, SINATRA E O ENCONTRO IMPROVÁVEL


Ao completar 66 anos no último dia 10 de maio, Bono voltou a ser celebrado não apenas como a voz do U2, mas também como um artista que atravessou fronteiras musicais e culturais. Nascido Paul David Hewson, em Dublin, em 10 de maio de 1960, o cantor construiu sua carreira à frente de uma das bandas mais influentes do rock e também se tornou uma figura ligada a causas humanitárias, especialmente no combate à pobreza extrema e à AIDS por meio de iniciativas como ONE e (RED).

Entre os encontros musicais mais curiosos de sua trajetória está “I’ve Got You Under My Skin”, clássico de Cole Porter gravado por Bono ao lado de Frank Sinatra para o álbum Duets, lançado em 1993. A canção, já eternizada por Sinatra décadas antes, ganhou uma nova leitura ao unir a elegância de “A Voz” à dramaticidade do vocalista do U2. A faixa é um dos grandes standards do Great American Songbook.

O projeto Duets

Créditos da imagem: Reprodução/Capital Records/EMI

No começo dos anos 1990, Frank Sinatra já ocupava um lugar quase mítico na música americana. Ele não precisava provar mais nada, mas ainda buscava uma forma de recolocar seus standards diante de uma geração que consumia pop, soul, rock e música latina em escala global.

Foi nesse contexto que nasceu Duets. A ideia surgiu a partir de conversas entre o empresário de Sinatra, Eliot Weisman, o produtor Phil Ramone e executivos da EMI/Capitol. O projeto tinha uma proposta ousada para a época: preservar o repertório clássico de Sinatra, mas criar duetos com artistas de diferentes estilos e idades.

O álbum reuniu nomes como Luther Vandross, Aretha Franklin, Barbra Streisand, Julio Iglesias, Tony Bennett, Natalie Cole, Charles Aznavour, Carly Simon, Liza Minnelli, Anita Baker, Kenny G e Bono. Na sequência, Duets II, lançado no ano seguinte, ampliou a ideia com participações de artistas como Tom Jobim, Willie Nelson, Luis Miguel, Linda Ronstadt, Stevie Wonder, Chrissie Hynde e Frank Sinatra Jr.

Como Bono entrou nessa história

A presença de Bono no projeto tinha um significado especial. No início dos anos 1990, o U2 vivia uma fase de enorme exposição internacional, embalada por Achtung Baby, Zooropa e pela estética provocadora da turnê Zoo TV. Bono, por sua vez, já havia deixado de ser apenas um vocalista de rock para se tornar uma personalidade pop reconhecida por sua presença de palco, seu discurso público e sua curiosidade musical.

Sinatra também conhecia Bono e os integrantes do U2 dos bastidores. Em entrevista ao Los Angeles Times na época do lançamento de Duets, o cantor americano disse que havia encontrado o grupo algumas vezes e elogiou a interpretação de Bono em “I’ve Got You Under My Skin”, chamando atenção para a criatividade do irlandês na faixa.

Por que eles não gravaram juntos

Apesar da força simbólica do encontro, Sinatra e Bono não dividiram o mesmo estúdio durante a gravação da música. Esse era justamente o conceito técnico de Duets. Sinatra registrou suas partes ao vivo, com uma orquestra de 54 músicos nos estúdios da Capitol, em Los Angeles. Depois, os convidados gravaram suas vozes em outros locais, com apoio de tecnologia digital, e as faixas foram unidas na produção final.

Por isso, o dueto não nasceu de uma troca espontânea diante dos microfones. Foi uma construção de estúdio, algo moderno para aquele período e bastante comentado na época. Ainda assim, a fórmula deu resultado comercial: Duets se tornou um dos maiores sucessos da fase final de Sinatra e ajudou a apresentar parte de seu repertório a ouvintes mais jovens.

O encontro para o videoclipe

Se a gravação da música ocorreu à distância, o videoclipe aproximou os dois artistas pessoalmente. O vídeo de “I’ve Got You Under My Skin” foi filmado em novembro de 1993, em Rancho Mirage, na região de Palm Springs, na Califórnia, sob direção de Kevin Godley. A produção mesclou imagens históricas de Sinatra, cenas de Bono em estúdio, referências visuais à fase Zoo TV do U2 e momentos dos dois em uma limusine.

Anos depois, Bono relembrou em texto publicado pelo site oficial do U2 que passou um tempo na casa de Sinatra em Palm Springs. O cantor contou que conversou com ele sobre jazz, Miles Davis e arte, e recebeu de presente uma pintura feita pelo próprio Sinatra. A lembrança reforça que a parceria não ficou restrita ao truque técnico do álbum: houve, de fato, uma admiração mútua entre dois artistas de universos muito diferentes.

Um clássico entre gerações

“I’ve Got You Under My Skin”, composta por Cole Porter em 1936, completa 90 anos em 2026 e permanece como uma das faixas mais lembradas de Duets justamente pelo contraste entre seus intérpretes. De um lado, Frank Sinatra, símbolo maior do cancioneiro americano. Do outro, Bono, rosto de uma geração moldada pelo rock de arena, pela MTV e pelas grandes campanhas globais.

O resultado não foi um dueto tradicional, mas virou um registro marcante da discografia final de Sinatra e uma das colaborações mais sofisticadas da carreira de Bono fora do U2. Três décadas depois, a gravação ainda soa como um encontro raro: elegante, improvável e feito sob medida para mostrar que grandes canções encontram novas leituras sem perder a própria história.



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