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Música

O SEGREDO DOS ROLLING STONES


Carta do papai Noel

Há bandas que permanecem porque o público não deixa que elas desapareçam. E há bandas que permanecem porque continuam criando maneiras de existir no presente. Os Rolling Stones pertencem ao segundo grupo.

A cada novo anúncio, turnê, reedição, videoclipe, entrevista ou música inédita, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood mostram que a longa duração da banda não depende apenas da memória dos anos 1960 e 1970. O passado é fundamental, mas não funciona sozinho. No caso dos Stones, a permanência parece vir de uma combinação mais rara: raízes muito profundas, senso de adaptação e uma identidade musical simples de reconhecer, mas difícil de reproduzir.

O novo álbum Foreign Tongues, previsto para 10 de julho de 2026, reforça essa ideia. O disco sucede Hackney Diamonds, trabalho de 2023 que ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Rock em 2025, e chega com produção de Andrew Watt, o mesmo produtor responsável por ajudar a banda a recuperar uma energia de estúdio que muitos já não esperavam ouvir em um grupo com mais de seis décadas de estrada.

Mas o segredo dos Rolling Stones não está em simplesmente continuar. Está em saber como continuar.

A raiz está no blues

Créditos da imagem: Kirk West / Getty Images

Os Stones começaram olhando para trás. Antes de se tornarem uma das bandas mais conhecidas do mundo, eles eram jovens ingleses fascinados pelo blues norte-americano. Essa formação inicial foi decisiva.

Muddy Waters, Howlin’ Wolf, B.B. King, John Lee Hooker, Chuck Berry e tantos outros artistas não eram apenas referências musicais para os Rolling Stones. Eles representavam uma forma diferente de enxergar a própria carreira. No blues, a música não costumava estar ligada à ideia de juventude passageira. Muitos desses artistas continuavam gravando, excursionando e se apresentando aos 60, 70 ou 80 anos, como parte natural da vida profissional.

A ligação dos Stones com o blues aparece até no próprio nome da banda, inspirado em “Rollin’ Stone”, canção gravada por Muddy Waters em 1950.

Essa percepção ajudou os Rolling Stones a construir uma relação diferente com o tempo. Para eles, tocar não era uma etapa da juventude. Era uma prática de vida. O rock, filtrado pelo blues, podia envelhecer junto com seus músicos.

Por isso, a longevidade dos Stones parece menos surpreendente quando vista por esse ângulo. A banda nasceu inspirada por artistas que nunca trataram a maturidade como impedimento. Ao contrário: no blues, a idade costuma acrescentar textura, ironia, pausa e experiência.

Uma banda que aprendeu a mudar por dentro

Créditos da imagem: © Michael Ochs Archives / Getty Images

A história dos Rolling Stones também é marcada por ausências. Algumas foram traumáticas, outras silenciosas, mas todas exigiram reorganização.

Brian Jones foi uma força decisiva no começo do grupo. Sua curiosidade instrumental ajudou a ampliar a sonoridade dos primeiros anos. Mick Taylor, que veio depois, trouxe uma guitarra mais melódica e refinada. Bill Wyman deu estabilidade ao baixo por décadas. Ian Stewart, fundador muitas vezes lembrado como o “Stone esquecido”, permaneceu ligado à banda mesmo depois de sair da formação oficial. Bobby Keys acrescentou ao som dos Stones um saxofone que virou quase parte da mobília musical do grupo. Charlie Watts, com sua elegância discreta na bateria, foi durante décadas o ponto de equilíbrio.

A saída ou a morte de cada um desses nomes poderia ter encerrado uma fase de maneira definitiva. Mas os Stones fizeram algo mais difícil: mudaram sem transformar a mudança em ruptura total.

A banda nunca substituiu seus integrantes como quem troca peças de uma engrenagem. O processo foi mais orgânico. O som se rearranjou em torno de quem ficou, de quem entrou e de quem passou a ocupar outro espaço. Essa elasticidade ajudou os Stones a seguir sem apagar as marcas de quem participou da construção.

Keith Richards, o centro sonoro

Créditos da imagem: Christopher Simon Sykes — Hulton Archive / Getty Images

Se há um ponto fixo na música dos Rolling Stones, ele passa pela guitarra de Keith Richards.

Keith não construiu sua importância apenas pela quantidade de riffs famosos. O que o distingue é uma maneira própria de tocar: econômica, rítmica, áspera na medida certa, sempre mais preocupada com balanço do que com exibição técnica. Sua guitarra parece puxar a banda para a frente sem precisar ocupar todo o espaço.

Ao longo dos anos, esse eixo encontrou parceiros diferentes. Com Brian Jones, havia contraste e invenção. Com Mick Taylor, veio uma fase de solos mais longos e acabamento mais sofisticado. Com Ron Wood, a banda recuperou uma conversa de guitarras mais solta, quase intuitiva, que se tornou parte essencial do som ao vivo e em estúdio.

Ron Wood, que entrou nos anos 1970 e se consolidou como integrante definitivo, ajudou a restabelecer a ideia de duas guitarras conversando entre si, sem hierarquia rígida. Esse diálogo é um dos traços mais reconhecíveis dos Stones. Não é apenas acompanhamento. É linguagem.

Os discos depois da fase clássica

É comum reduzir os Rolling Stones ao período entre o fim dos anos 1960 e a primeira metade dos anos 1970. A fase é, de fato, central. Mas a história da banda ficaria incompleta se terminasse ali.

Créditos da imagem: Reprodução / The Rolling Stones

Nos anos 1980, Tattoo You mostrou que os Stones ainda podiam lançar um álbum com força popular e repertório duradouro. “Start Me Up” se tornou uma das músicas mais reconhecidas do grupo e ajudou a apresentar a banda a ouvintes que não tinham vivido os anos de formação do rock.

Nos anos 1990, Voodoo Lounge teve outro papel. O álbum recolocou os Stones em uma escala global de grandes turnês, com produção atualizada e uma leitura mais madura de suas próprias raízes. Não era uma tentativa de soar jovem a qualquer custo. Era uma maneira de soar Stones em outro tempo.

Décadas depois, Hackney Diamonds surpreendeu parte da crítica justamente por não parecer um exercício protocolar. O disco recebeu avaliações favoráveis no Metacritic e acabou vencendo o Grammy de Melhor Álbum de Rock.

Agora, Foreign Tongues chega anunciado como mais um trabalho de estúdio, com faixas como “In the Stars” e “Rough and Twisted”. Ainda é cedo para medir seu lugar na discografia, mas o simples fato de um novo álbum dos Stones gerar expectativa em 2026 diz muito sobre a forma como a banda administra sua própria continuidade.

Abertura para produtores, remixes e novas escutas

Outro ponto importante é que os Rolling Stones nunca ficaram presos a uma única forma de circulação musical.

A banda nasceu no blues, consolidou-se no rock, atravessou o rádio, os compactos, o LP, o CD, a MTV, o streaming e agora as plataformas digitais. Em cada fase, precisou negociar com novos formatos sem perder completamente o próprio sotaque.

Essa abertura aparece também em remixes, releituras e parcerias. Um exemplo recente é “Satisfaction Skank”, colaboração oficial entre Fatboy Slim e The Rolling Stones, lançada pela Southern Fried e ABKCO. A faixa nasceu de uma reinterpretação ligada ao universo das pistas e foi apresentada como colaboração oficial depois de anos circulando no imaginário da cultura dance.

Esse tipo de movimento ajuda a explicar por que a banda continua chegando a ambientes onde o rock tradicional nem sempre circula com naturalidade. Os Stones entenderam que uma música clássica pode ganhar nova vida quando passa por outras mãos, outros ritmos e outros públicos.

A imagem como extensão da música

Os Rolling Stones também compreenderam cedo que música popular não vive apenas do som.

Antes da MTV, a banda já trabalhava imagem, atitude, fotografia, capas, figurino e presença pública. O famoso logotipo da língua se tornou uma das marcas mais reconhecíveis da cultura pop, mas ele é apenas parte de uma estratégia visual mais ampla. Os Stones sempre souberam que uma banda também comunica pelo modo como aparece.

Quando o videoclipe ganhou força, eles se adaptaram à televisão musical. Na era das plataformas, voltaram a reorganizar essa presença em trailers, teasers, vídeos curtos, bastidores e campanhas de lançamento. A lógica mudou, mas a intuição permaneceu parecida: aparecer pouco não basta; aparecer demais também desgasta. O segredo está na medida.

Essa administração da imagem é um dos motivos pelos quais os Stones continuam parecendo ativos mesmo quando passam períodos sem lançar um álbum. Há sempre uma fotografia, uma edição especial, uma performance, uma entrevista ou uma pista visual capaz de recolocar a banda em circulação.

Duas histórias por trás do mito

Em mais de seis décadas de carreira, os Rolling Stones acumularam episódios que ajudam a entender não apenas a dimensão da banda, mas também as contradições de sua própria história. Duas passagens, em especial, costumam aparecer nas biografias e nos estudos sobre o grupo: o caso de Ian Stewart, o chamado “sexto Stone”, e o Festival de Altamont, um dos momentos mais trágicos associados ao rock.

Ian Stewart: O Stone “Esquecido’

Ian Stewart foi um dos fundadores dos Rolling Stones. Pianista ligado ao boogie-woogie e ao blues, ele foi o primeiro músico a responder ao anúncio publicado por Brian Jones na revista Jazz News, em 1962, quando a banda ainda começava a se formar. No entanto, em maio de 1963, já com Andrew Loog Oldham no comando da estratégia de imagem do grupo, Stewart deixou de aparecer como integrante oficial. A justificativa mais repetida ao longo dos anos é que seis membros seriam demais para uma banda pop em ascensão e que Stewart não se encaixava no visual que o empresário desejava construir para os Stones.

A história acabou ganhando uma leitura ainda mais dura em parte do jornalismo musical: a de que Stewart teria sido considerado “fora do padrão” para a imagem rebelde e provocadora que os Rolling Stones queriam vender ao público. Na prática, ele saiu da linha de frente, mas nunca deixou de fazer parte da estrutura do grupo. Continuou como pianista, colaborador de estúdio, apoio de bastidor e figura respeitada pelos músicos. Mick Jagger chegou a dizer que Stewart ajudava a banda a “swingar” e que sua aprovação era importante nos ensaios e composições.

Esse detalhe torna a trajetória de Ian Stewart ainda mais curiosa. Ele foi retirado da fotografia principal, mas permaneceu no som. O público talvez não reconhecesse seu rosto com a mesma facilidade, porém sua presença atravessou gravações, shows e decisões internas. Por isso, o apelido de “sexto Stone” não soa apenas como uma homenagem tardia. Ele resume uma espécie de paradoxo: Stewart ficou fora da mitologia visual da banda, mas continuou dentro de sua engrenagem musical.

Festival de Altamont: O inferno dos Rolling Stones

Créditos da imagem: Robert Altman / Michael Ochs Archives / Getty Images

A outra história é bem mais sombria. Em 6 de dezembro de 1969, os Rolling Stones encerraram sua turnê norte-americana com um festival gratuito no Altamont Speedway, na Califórnia. A ideia era realizar um grande encontro ao ar livre, em clima parecido com o de Woodstock. O evento reuniu nomes como Santana, Jefferson Airplane, Flying Burrito Brothers, Crosby, Stills and Nash e os próprios Stones. A organização, porém, foi marcada por improviso, tensão e problemas de segurança.

O ponto mais controverso foi a presença dos Hells Angels como segurança informal do festival. Durante a apresentação dos Rolling Stones, Meredith Hunter, um jovem de 18 anos, foi morto perto do palco. Ao todo, Altamont terminou com quatro mortes: a de Hunter e outras três acidentais. O episódio ficou registrado no documentário Gimme Shelter e passou a ser lembrado como uma das maiores tragédias da história do rock.

Altamont também se tornou um símbolo incômodo porque aconteceu poucos meses depois de Woodstock, quando a cultura jovem ainda era associada à ideia de comunhão, liberdade e mudança. Se Woodstock virou imagem de celebração, Altamont passou a representar o lado desorganizado, tenso e perigoso daquele mesmo período. A imprensa internacional frequentemente trata o festival como um marco do fim simbólico dos anos 1960, embora essa leitura seja mais cultural do que literal.

Essas duas histórias mostram lados diferentes da trajetória dos Rolling Stones. Ian Stewart revela como a imagem da banda foi construída com escolhas duras, inclusive apagando parcialmente um fundador. Altamont, por sua vez, lembra que o mito dos Stones também atravessou episódios de enorme gravidade. Entre bastidores, reinvenções e contradições, a longevidade do grupo não se explica apenas pela música, mas também pela forma como a banda sobreviveu às próprias sombras.

Envelhecer sem abandonar o próprio som

Créditos da imagem: Evan Agostini / Invision / AP

A longevidade dos Rolling Stones não pode ser explicada apenas por resistência física, carisma ou fama acumulada. Esses elementos existem, mas não bastam.

O que diferencia a banda é a soma de fatores menos óbvios: a formação no blues, a disciplina do palco, a adaptação a perdas internas, a permanência da guitarra de Keith Richards como centro sonoro, a entrada de parceiros capazes de renovar o ambiente de estúdio e a leitura precisa das mudanças na indústria.

Os Stones não tentam apagar a idade. Também não transformam a própria história em vitrine imóvel. O caminho tem sido outro: aceitar o tempo, mas não deixar que ele determine sozinho o ritmo da banda.

Talvez seja esse o ponto mais interessante. Os Rolling Stones continuam porque nunca trataram sua trajetória como algo encerrado. Para uma banda formada nos anos 1960, ainda lançar músicas, testar formatos, dialogar com produtores e disputar atenção no presente já é, por si só, uma forma de resposta.

O segredo, afinal, não está em permanecer jovem. Está em continuar reconhecível sem ficar parado no mesmo lugar.



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