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STEVE SODERBERGH USA IA EM PARCERIA COM A META EM NOVO DOCUMENTÁRIO SOBRE JOHN LENNON
O novo documentário de Steven Soderbergh sobre John Lennon e Yoko Ono entrou no radar de Hollywood por um tema recorrente: o uso de inteligência artificial no cinema. Segundo o diretor, que utilizou o recurso em parceria com a Meta, a tecnologia aparece de forma controlada, transparente e com função estética — sem a intenção de recriar Lennon digitalmente.
Intitulado “John Lennon: The Last Interview”, o filme acompanha a última entrevista concedida por John Lennon e Yoko Ono, registrada pela RKO Radio em 8 de dezembro de 1980. O documentário tem estreia prevista no Festival de Cannes e ganhou atenção após Steven Soderbergh comentar à Deadline sobre o uso de IA generativa na produção. A abertura do evento, realizado anualmente na Riviera Francesa, está marcada para terça-feira, 12 de maio, com encerramento previsto para sábado, 23 de maio.
Segundo a reportagem, o diretor contou com a Meta como parceira de tecnologia criativa e financeira no projeto. A inteligência artificial foi usada para criar imagens em momentos nos quais a conversa entra em temas mais conceituais, difíceis de traduzir apenas com material de arquivo.
Não é uma recriação de Lennon
A principal preocupação de Soderbergh foi afastar a ideia de que o filme tentaria “trazer John Lennon de volta”. Em entrevista à Deadline, ele afirmou que parte do público chegou rapidamente à pior conclusão ao saber que havia IA no projeto: a de que o documentário usaria a tecnologia para simular a presença do músico.
O diretor comparou o uso da IA a recursos já conhecidos do cinema, como efeitos visuais e CGI. A diferença, segundo ele, está na intenção: a tecnologia não foi usada para fazer o público acreditar que está vendo algo real, mas para criar passagens visuais claramente estilizadas, ligadas ao conteúdo da entrevista.
Essa distinção é importante porque o projeto envolve um dos nomes mais simbólicos da música mundial. Lennon, ex-integrante dos Beatles, segue como uma figura de enorme peso cultural, e qualquer uso de tecnologia associado à sua imagem naturalmente desperta atenção.
A entrevista no centro do filme
Apesar da repercussão em torno da inteligência artificial, o foco do documentário permanece na conversa entre John Lennon e Yoko Ono. Steven Soderbergh afirmou ter ficado impressionado com a abertura dos dois durante a entrevista histórica e com a disposição do casal para abordar diferentes temas.
A proposta do filme, portanto, não é transformar IA no tema principal, mas usar a ferramenta para tornar o material mais visual e acessível ao público. É uma escolha de linguagem: quando não há imagens suficientes para acompanhar determinadas ideias, o diretor recorre a sequências criadas artificialmente, sem apresentá-las como registro histórico.
Um debate que vai além do documentário
O caso chama atenção porque chega em um momento em que Hollywood discute com mais intensidade os limites da inteligência artificial. Em filmes, séries, música e publicidade, a tecnologia vem sendo observada com curiosidade, mas também com cautela.
No caso de “John Lennon: The Last Interview”, a questão central é a transparência. Para Soderbergh, o público precisa saber quando está diante de imagens criadas por IA. Essa postura ajuda a diferenciar o uso criativo da tecnologia de práticas que poderiam causar confusão entre documento, ficção e manipulação visual.
Para quem acompanha a trajetória de Lennon, o documentário também deve funcionar como uma nova oportunidade de ouvir o artista em um momento raro e sensível de sua vida pública. A tecnologia entra como apoio; a voz, a memória e as ideias de Lennon seguem como o verdadeiro centro da narrativa.
No fim, o filme levanta uma pergunta que ultrapassa o universo dos Beatles: até onde a inteligência artificial pode ajudar a contar uma história sem substituir a força do registro humano?



