Música
COMO LADY GAGA E MADONNA TRANSFORMARAM A MODA EM LINGUAGEM POP
Madonna e Lady Gaga ajudaram a transformar a moda em uma extensão da música — e, em muitos momentos, em parte inseparável dela. As duas construíram carreiras no contexto em que imagem, performance e identidade visual funcionam como linguagem artística, provocação cultural e estratégia de reinvenção.
Se Madonna abriu esse caminho ao fazer da moda um instrumento de choque, poder e ruptura, Lady Gaga levou a lógica a outro patamar e converteu cada era em um projeto estético próprio. Entre as duas, o que se vê é uma relação contínua e em permanente evolução entre pop e fashion, em que a roupa deixa de ser ornamento e passa a ocupar o centro da narrativa.
Ao longo de suas trajetórias, Madonna e Gaga redefiniram o mercado por dentro. Em vez de seguir tendências, elas influenciaram estilistas, editoriais, campanhas e novas gerações de artistas, o que consolidou uma espécie de ponte viva entre a cultura pop e a indústria fashion.
Lady Gaga e a coroação fashion em O Diabo Veste Prada
Com o recente lançamento do videoclipe de “RUNWAY”, parceria de Lady Gaga com Doechii para a trilha de O Diabo Veste Prada 2, a cantora se aproximada ainda mais de uma conversa que a acompanha há anos: a relação intensa entre música e moda. No novo vídeo, as duas artistas surgem em figurinos extravagantes, em uma estética claramente inspirada no universo fashion do filme, reforçando uma assinatura que Gaga vem lapidando ao longo de sua carreira.
Mas a novidade desta semana vai além da divulgação de uma trilha sonora. Ela recoloca Lady Gaga em um território que sempre foi parte da sua identidade artística: o de transformar roupa, imagem e performance em linguagem. E é justamente a partir desse ponto que vale olhar para o caminho que a cantora percorreu até se tornar uma das figuras mais influentes da cultura pop quando o assunto é moda.
Lady Gaga transformou a relação entre música e moda, utilizando o vestuário como uma extensão narrativa de sua arte e identidade. Desde o início da carreira, ela estabeleceu a Haus of Gaga, uma equipe criativa dedicada a conceber seus figurinos, adereços e cenários icônicos.
Eras e Looks Icônicos da Mother Monster
A evolução fashion de Gaga é marcada por transformações drásticas ligadas aos seus álbuns:
The Fame / The Fame Monster (2008-2010)
Créditos da imagem: Getty Images
Introduziu a estética futurista e “disco”, com laços de cabelo feitos da própria fibra capilar, ombreiras estruturadas e os famosos sapatos Armadillo de Alexander McQueen. O momento mais divisivo foi o vestido de carne crua usado no VMA 2010, um manifesto político contra a discriminação no exército dos EUA.
Born This Way (2011-2012)

Créditos da imagem: Gareth Cattermole/Getty Images
Focada no surrealismo e no ‘corpo como arte’, marcou a história ao chegar ao Grammy dentro de um ovo gigante (casulo), o que simbolizou o renascimento.
Artpop (2013)

Créditos da imagem: Getty Images
Experimentou com o conceito de arte contemporânea, usando peças inspiradas em obras de Jeff Koons e looks de “cara limpa” que contrastavam com perucas extravagantes.
Joanne & A Star Is Born (2016-2018)

Créditos da imagem: Promocional
Uma transição para a alta elegância e o estilo country-rock, simbolizada pelo chapéu rosa de abas largas.
Chromatica & Eras Recentes (2020-2026)

Crédito: Mason Poole
Retornou ao visual intergaláctico e “punk cyberpunk”, como visto nos looks de látex rosa de “Stupid Love” (acima) e a “Armadura da Gentileza”.
Videoclipes e o Cinema Fashion
Os videoclipes de Gaga funcionam como passarelas experimentais de alta-costura:
Bad Romance
Um marco que apresentou a coleção Plato’s Atlantis de McQueen, na qual incluiu as plataformas que desafiam a gravidade.
Telephone
Colaboração com Beyoncé que trouxe acessórios bizarros como óculos de cigarros acesos e bobes de cabelo feitos de latas de Diet Coke.
Alejandro
Explorou temas fetichistas e religiosos com figurinos de látex e sutiãs de rifle.
Runway
Colaboração com Doechii para o filme The Devil Wears Prada 2, onde o clipe é ambientado nos bastidores da Semana de Moda de Milão e culmina com um desfile de alta-costura.
Colaborações e Designers
Gaga se tornou inspiração e amiga de grandes nomes da moda:
Alexander McQueen: Sua relação mais profunda e influente; ela o considera o maior designer de todos os tempos.

Créditos da imagem: McQueen, Bjork. Watson/AFP/Getty
Versace: Estrelou campanhas para a marca e é amiga íntima de Donatella Versace, que desenhou seu figurino para o Super Bowl em 2017.
Brandon Maxwell: Seu ex-stylist que se tornou um designer de sucesso criou coleções inspiradas no estilo da cantora.

Créditos da imagem: Jamie McCarthy/Getty Images
Parcerias de Luxo: Trabalhou com Tiffany & Co., Valentino, e Maison Dom Pérignon.
Madonna e o início dessa linguagem no pop
Antes de Lady Gaga transformar a moda em uma estrutura narrativa complexa, Madonna já havia estabelecido as bases desse diálogo no universo pop. Desde os anos 1980, a artista passou a utilizar figurinos e styling como extensões diretas de seu discurso artístico, explorando temas como poder, sexualidade, religião e ambiguidade de forma provocativa e estrategicamente calculada.
Em sua trajetória, a moda nunca ocupou um papel acessório. Ao contrário, funcionou como instrumento de ruptura, ajudando a desafiar normas culturais e a reposicionar o lugar da mulher na indústria musical. Corsets, símbolos religiosos, referências fetichistas e releituras de códigos clássicos foram incorporados como parte de uma narrativa que transitava entre o choque e a reinvenção constante.
É a partir desse ponto que se estabelece uma linha de continuidade no pop contemporâneo. Lady Gaga não surge para romper com esse modelo, mas para expandi-lo. Se Madonna transformou a moda em ferramenta de provocação e transformação de imagem, Gaga leva essa lógica a um território mais performático e conceitual, no qual figurino, palco e identidade visual passam a operar como uma obra integrada.
Longe de uma comparação direta, o que se observa é uma linhagem artística. Madonna abre o caminho ao consolidar a moda como linguagem no pop; Gaga amplia esse vocabulário ao transformar essa linguagem em um sistema estético completo, onde cada era se estrutura como um projeto visual e simbólico próprio.
Eras e Looks Icônicos da Rainha do Pop
Madonna utilizou a moda como uma ferramenta de subversão social, política e religiosa, definindo o conceito de “reinvenção” décadas antes de se tornar um termo comum na cultura pop.
Eras e Looks Icônicos
A cantora construiu sua persona através de imagens que se tornaram símbolos culturais:
Boy Toy & Virgin (Anos 80)

Crédito da imagem: Reprodução / Arquivo / MTV
O visual “clássico” de Madonna consistia em camadas de colares de pérolas, crucifixos, luvas de renda sem dedos e o famoso cinto “Boy Toy”. Ela democratizou a moda de rua e o estilo punk-chic, influenciando uma geração inteira de “Madonna-wannabes”.
Blonde Ambition & O Cone Bra (1990)

Crédito da imagem: Getty Images
Talvez o momento mais icônico da moda pop. O corpete com seios em cone, desenhado por Jean Paul Gaultier, transformou lingerie em armadura e símbolo de poder feminino, e desafiou tabus sobre sexualidade.
Erotica & Sex (1992)

Créditos da imagem: Reprodução / Arquivo / Erotica (1992) Madonna
Uma fase focada no fetichismo, couro e estética BDSM, na qual colaborou fortemente com a Versace para explorar os limites do choque cultural.
Ray of Light (1998)

Créditos da imagem: Reprodução YouTube
Uma mudança radical para estética Y2K futurista, caracterizada pelo dinamismo visual, uso de jeans, cabelos naturais e uma atmosfera de energia urbana acelerada.
Hung Up & Confessions (2005)

Créditos da imagem: Reprodução via IMDb
O retorno à era Disco. Collants de ginástica, cabelos volumosos estilo anos 70 e muito brilho, consolidando-se como a rainha das pistas de dança com um visual atlético e glamouroso.
Videoclipes e o Cinema Fashion
A videografia de Madonna é uma enciclopédia visual de estilos:
Vogue
Uma homenagem à era de ouro de Hollywood e à cultura ballroom do Harlem. Filmado em preto e branco, o clipe é pura alta-costura e elegância clássica.
Express Yourself
Inspirado no filme Metropolis, o vídeo apresentou Madonna em ternos masculinos e corpetes de metal, e brincou com a fluidez de gênero muito antes de ser tendência.
Material Girl
Uma recriação meticulosa do look de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras, que estabeleceu a conexão eterna de Madonna com os ícones do passado.
Bedtime Story
Um épico visual surrealista repleto de referências a artistas como Frida Kahlo e Leonora Carrington, com figurinos que parecem obras de arte abstratas.
Colaborações e Designers
Madonna foi a primeira grande “musa global” para os designers de luxo:
Jean Paul Gaultier

Créditos da imagem: Theo Wargo/Getty Images
Uma amizade de décadas. Gaultier não apenas criou o figurino da Blonde Ambition Tour, mas Madonna chegou a desfilar para ele na passarela com os seios à mostra em 1992.
Dolce & Gabbana

Créditos da imagem: Reprodução / ilsole24ore
A dupla italiana desenhou figurinos para várias turnês (como a Girlie Show) e Madonna estrelou campanhas icônicas para a marca, muitas vezes interpretando a “viúva italiana” clássica.
Versace

Créditos da imagem: Reprodução via Pinterest
Grande amiga de Gianni e, posteriormente, de Donatella, ela foi o rosto de várias campanhas da casa e simbolizou a mulher poderosa e independente da marca.
Riccardo Tisci (Givenchy)


Créditos da imagem: Kevin Mazur/WireImage / Reprodução / YouTube
Ele criou os figurinos para o show do Super Bowl de 2012, transformando-a em uma “Gladiadora Couture” dourada.
A ponte definitiva entre a música e o universo fashion
No fim, o que une Madonna e Lady Gaga é a maneira como ambas compreenderam a moda como linguagem — e não como complemento. Ao longo de décadas, as duas artistas ajudaram a deslocar o figurino do campo estético para o campo narrativo, transformando imagem em discurso e performance em identidade cultural.
Se Madonna foi responsável por abrir esse caminho ao incorporar provocação, sexualidade e ruptura como parte do visual no pop, Gaga amplia essa construção ao integrar moda, música e conceito em uma estrutura mais ampla e contínua. O que antes era estratégia de choque passa a operar como sistema artístico completo, em que cada era se organiza como uma obra visual própria.
É nesse contexto que RUNWAY funciona como síntese dessa trajetória, reunindo música, cinema e moda em um mesmo gesto — e reforçando a permanência de Lady Gaga como uma das artistas que melhor traduzem o diálogo entre cultura pop e indústria fashion.
Madonna e Gaga ajudaram e continuam a criar tendências. Ao fazerem isso, redefiniram a forma como o mundo pop se comunica com o mundo e, ao mesmo tempo, como o universo fashion é visto pelo ângulo da indústria musical.



