Economia
OPINIÃO. Por que os brasileiros são viciados em crédito
O tema do endividamento das famílias voltou às manchetes e, com ele, as possíveis explicações para o fenômeno.
A mais recorrente razão apontada seria a falta de educação financeira das famílias. Porém, o recente relatório sobre Cidadania Financeira do Banco Central indica que estamos na média global no que diz respeito ao letramento financeiro, muito próximo à média dos países membros da OCDE.
Outro motivo seria a baixa concorrência no mercado de crédito, que impediria uma queda dos juros cobrados. Mas nos últimos anos, a concorrência no segmento de crédito não garantido à pessoa física aumentou, como mostram os dados do Relatório de Estabilidade Financeira do BC de abril de 2024.
Existem explicações mais exóticas, como a que justifica o elevado endividamento pelo nível de juros cobrados, ferindo a simples lógica econômica. Juros maiores deveriam reduzir o endividamento por parte da família. Reduzi-los, o aumentaria.
Também há os que acreditam que o sistema financeiro teria baixo apetite de risco para conceder esses créditos. Porém, os limites de créditos individuais hoje aprovados pelos bancos permitiriam que seu endividamento quintuplicasse. Ou seja, não falta oferta de crédito.
Outros culpam as apostas. Estudos recentes, como um da LCA Consultoria, mostram que o montante total de gastos em apostas no Brasil representa 0,5% do consumo total e 3,3% da renda mensal média. Já o endividamento total das famílias representa 50% de sua renda anual. Logo, justificar o endividamento desta forma não parece adequado.
Portanto, no momento em que se discute um novo Desenrola, cabe refletir sobre questões estruturais deste mercado.
Do ponto de vista macro, o Brasil se destaca entre os emergentes no que diz respeito ao consumo. A parcela da renda total gasta com consumo no Brasil é das mais elevadas entre os países com renda per capita similar à nossa. Isso se reflete na baixíssima taxa de poupança interna (15% da renda) quando comparada com outros países emergentes (25% ou mais).
Além disso, o nosso consumo per capita, ajustado pelo poder de compra, é bem superior ao da média dos países emergentes. Ou seja, tudo indica que temos uma maior propensão ao consumo. Inúmeros países com renda per capita inferior à nossa poupam mais. Logo, isso não se deve ao nível de renda.
O que difere o caso brasileiro é a estrutura do Estado. Decidimos ter um Governo que oferece uma rede social mais ampla. Os gastos em todos os seus níveis, como percentual do PIB, são os mais elevados entre os países de renda similar, mesmo quando excluímos os gastos com juros.
Em termos de oferta de serviços públicos, consumo do estado como proporção do PIB, estamos 15% acima da média global. Com relação às transferências sociais via aposentadorias, auxílio-desemprego e programas de proteção social, somos de longe o maior. Tudo isso foi escolhido quando foi escrita nossa Constituição, em 1988.
A literatura econômica reconhece que, quanto maior for a rede de proteção social, ou seja, a oferta de serviços públicos para a população somada às transferências de renda, menor é a propensão a poupar. Isto faz sentido intuitivo. Pois neste quadro se reduz muito a necessidade de se fazer a poupança precaucional.
Dados da POF do IBGE mostram que pessoas que ganham até 3 salários mínimos consomem 100% de suas rendas ou mais. Ao mesmo tempo, tais famílias gastam cerca de 13% de sua renda com juros.
Caso o diagnóstico acima esteja correto, seria inevitável a adoção de regras prudenciais por parte dos BC que impeçam que pessoas com elevado comprometimento de renda se endividem ainda mais. Isso seria impopular, porém necessário tanto do ponto de vista social como para a saúde do sistema financeiro.
Ricardo Gallo é sócio da Ethica Serviços Financeiros.