O Instituto Butantan anunciou que vai desenvolver e fabricar uma terapia de anticorpos para infecção pelo vírus da febre amarela (YFV). A tecnologia será produzida em parceria com a empresa de biotecnologia Mabloc, sediada em Washington, nos Estados Unidos.
O medicamento, MBL-YFV-01, será indicado como tratamento da doença para moradores de áreas endêmicas que não foram vacinados e acabaram sendo infectados. Se trata de um anticorpo monoclonal, uma classe de medicamentos produzidos replicando anticorpos (moléculas que atuam no combate a agentes infecciosos) naturais do corpo humano.
Em um estudo feito com animais publicado em 2023 na Science Translational Medicine, uma dose única de 50 mg/kg do medicamento controlou totalmente a presença do vírus no sangue e preveniu a doença grave e a morte.
O medicamento está em fase de pesquisa e desenvolvimento. Cristiano Gonçalves, diretor de Inovação e Licenciamento de Tecnologia do Instituto Butantan, diz que, apesar de ter se mostrado bastante promissor nos ensaios pré-clínicos, é preciso iniciar os ensaios clínicos em humanos para se ter uma noção melhor da eficácia e do cronograma do produto.
Segundo o Butantan, a terapia foi descoberta por meio da plataforma BRAID™, de propriedade da empresa Mabloc, que utiliza inteligência artificial para identificar e otimizar rapidamente potenciais anticorpos.
A novidade ocorre em meio à escalada de casos de febre amarela no Brasil e na América Latina. Em junho, a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) divulgou boletins epidemiológicos com alerta para o aumento nos casos da doença na região do continente americano.
No Brasil foram confirmados 119 casos de febre amarela e 47 mortes em 2025, segundo o Ministério da Saúde (dados atualizados até 17 de novembro). O aumento foi significativo em relação a 2024, quando foram confirmados oito casos em todo o país.
A Opas alertou para a necessidade de reforçar a cobertura vacinal no Brasil e nos países latino-americanos. Segundo o Butantan, apesar da disponibilidade de uma vacina, a imunização é baixa e milhões de pessoas permanecem em risco.
“Atualmente, não existe um tratamento específico para febre amarela, apenas o imunizante para a prevenção —que não será substituído pelo medicamento. O medicamento será um complemento importante para reduzir o impacto da doença no mundo, em especial em países de baixa e média renda”, diz Gonçalves.
O diretor de desenvolvimento de Produtos da Mabloc, Michael Ricciardi afirma que a capacidade de intervir durante a fase aguda da doença, com risco de vida, é o que torna o MBL-YFV-01 único. “Embora a vacinação proteja a maioria da população, ainda há locais onde a imunização não é largamente acessível.”
Com o acordo, o Butantan terá concessão para desenvolver e comercializar o medicamento em países vizinhos, como a Colômbia, que também sofrem com o aumento de casos de febre amarela.
