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Cidade histórica de Iguassu Velha ressurge das cinzas em audacioso projeto de patrimônio e turismo em Nova Iguaçu
Se o fato de ter havido um vulcão em Nova Iguaçu já foi objeto de muita atenção da imprensa – aqui no DIÁRIO foi uma das matérias mais lidas de 2021 – a reconstrução de uma cidade histórica inteira tende a atrair também muita atenção. A Fundação Educacional e Cultural da cidade antecipou um grande presente para o município e para toda a Baixada Fluminense: o Museu de Arqueologia e Etnologia de Nova Iguaçu (MAE-NI), que terá como missão apresentar ao público o importante povoado de Iguassú, onde nascia uma rota do ouro e a Estrada Real do Comércio, em direção a Minas Gerais. A cidade que foi riquíssima em comércio durante todo o século XIX e onde se reuniam milhares de tropeiros cujas riquezas ajudaram a desenvolver o Rio de Janeiro ressurge praticamente do zero, mas no entorno de uma estrada de pedras de mão que ainda se encontra quase que perfeitamente íntegra. A área onde funcionará o equipamento é também um gigantesco sítio arqueológico onde já foram encontrados mais 200 mil fragmentos de peças históricas. A iniciativa única da Prefeitura de Nova Iguaçu deve atrair gente do Brasil inteiro, e é um caso inédito de reconstrução da memória a partir de estudos de historiadores e arqueólogos. O que mais impressiona quem conhece o projeto é o fato de que ele vai muito além de um museu.
O Largo da Piedade, onde funcionará o museu – facilmente reconhecido pela ruína da antiga igreja matriz local, de Nossa Senhora da Piedade, será destinado a eventos populares, como festivais literários e musicais, além de festividades histórico-religiosas, como a Folia de Reis. Uma bonita torre sineira, dois cemitérios – um da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Iguassu – e uma linda mata repleta de papagaios e animais silvestres introduzem o visitante ao Parque, que já ganhou um pórtico de entrada neocolonial. A ideia surgiu da necessidade de apresentar à população a história da Vila de Iguassu, com o cotidiano da sua sociedade e de toda a pluralidade que ali existiu. Os pesquisadores destacam que a região foi de grande importância para a construção do território brasileiro, especialmente a partir de 1883, quando a vila foi criada para atender às demandas da produção cafeeira e até mesmo ajudou a escoar o ouro de Minas Gerais.

Uma vez inaugurado – o museu já se encontra em fase final de construção e deve ser inaugurado ano que vem – irá apresentar inúmeros artefatos de grande importância para a história fluminense e do Brasil. Na últimas escavações, os pesquisadores encontraram itens, como moedas de 1869 – período do Império; além de moedas da Era de Getúlio Vargas; fragmentos de faianças (espécie de porcelana) portuguesas e inglesas; cerâmicas vidradas; fragmentos de vidros; frascos de remédSe io e de perfume; cachimbos de barro com grafismo africano; figas; talheres; adornos e metais.
Mas o renascimento de Iguassu não se resume ao Museu, e é aí que a história se torna única. A prefeitura está reconstruindo alguns quarteirões do vilarejo, que se localiza bem pertinho de outro ícone da região, a belíssima Fazenda São Bernardino, que também deverá ser restaurada, após a Prefeitura local se entender com o Iphan sobre como fazê-lo. Os quarteirões reconstruídos devem receber, além de serviços públicos – como guarda municipal e polícia – diversos restaurantes, pousadas e outros equipamentos turísticos. Uma verdadeira aula de educação patrimonial que emula as várias reconstruções de cidades que ocorreram na Europa, por conta das grandes guerras. Quem visita o local se admira com a calmaria e o silêncio, além do verde, isso tudo a poucos minutos da barulhenta Nova Iguaçu: “se tem uma Nova Iguaçu, temos que mostrar a todos que antes dela teve a Velha, e que ela foi importantíssima pro desenvolvimento do país“, explica o secretário de cultura e historiador Marcus Antonio Monteiro Nogueira. Visitando ao local, ainda é possível ver resquícios da Câmara e Cadeia de Iguassu – um sobrado originalmente de dois andares, com fachada em cantarias, assim como o interessante Cais de Iguassu, através do qual se utilizava o rio de mesmo nome para o transporte de mercadorias e passageiros. Isso mesmo, barcos aportavam ali! Pode-se observar as muradas de contenção do Cais e até mesmo a escadaria que levava os passageiros até os barcos.
Muito material arqueológico foi encontrado no poço público da antiga Vila de Iguassú, dentro do Parque Histórico e Arqueológico de Iguassú Velha. A área é a segunda explorada pela equipe de arqueólogos da própria Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, num movimento inédito: outras cidades gastam milhões contratando arqueólogos terceirizados. Em abril, esses arqueólogos da Prefeitura deram início à escavação da área da Câmara e Cadeia da antiga Vila de Iguassú. É possível caminhar – e dirigir – pela histórica Estrada Real do Comércio, mandada construir por Dom João VI; uma verdadeira viagem na história, sendo possível observar não só centenas de metros do próprio arruamento original como as detalhadas calçadas em pé de moleque.
No poço, construído em meados do século XIX durante uma crise hídrica na cidade e no Estado do Rio, os arqueólogos da Superintendência de Pesquisas Arqueológicas encontraram partes de paredes de tijolos maciços e um calçamento feito de pedras e tijolos maciços. Tido isto é facilmente observado numa visita ao local, que relembra uma escavação destas que vemos na TV em Israel ou na Itália. Nas proximidades da escavação do poço, os estudiosos abriram uma trincheira de 13 metros ao longo da Estrada Real do Comércio, para tentar encontrar remanescentes de alicerces de moradias que teriam existido na região no século XIX, com o intuito de desvendar os hábitos das populações coloniais locais e outras descobertas que efetivamente contam a história do comércio no país.
O mestre em arqueologia pelo Museu Nacional, que iniciou em abril a escavação autoriza pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Diogo Borges, destacou que, por meio da material encontrado é possível analisar não somente as questões culturais, mas também as relações econômicas e políticas daquela organização social:
“A partir dessas louças e de outros utensílios históricos, analisamos as questões culturais, econômicas e de poder, pois existem peças que possibilitam compreender as relações sociais e as hierarquias da época. As faianças inglesas que encontramos, veio com a abertura dos portos do Rio de Janeiro, no início do século XIX, com a chegada da família real portuguesa. Tem muitos produtos vindo da Europa para o mercado brasileiro. Estamos encontrando materiais históricos riquíssimos aqui”, disse o pesquisador.
Sobre a conservação dessa riqueza história, o estudioso explicou que todo o material encontrado nas escavações é encaminhado ao laboratório de arqueologia na Secretaria Municipal de Cultura para receber o tratamento adequado, seguindo as normas técnicas de conservação:
“As análises são feitas para identificar os tipos de materiais, técnica decorativa, morfológica da peça, período de fabricação e funcionalidade. Passando por todo um processo de análise quantitativa e qualitativa, para depois serem armazenado em nossa reserva técnica, devidamente acondicionada para sua preservação”, completou o Diogo Borges.
A sensação, ao se observar o primeiro quarteirão de imóveis coloniais sendo reconstruído, é de uma volta no tempo, de onde surgirá uma espécie de Paraty da Baixada, trazendo de volta a vida o antigo povoado, que deve se tornar uma opção interessantíssima de lazer e turismo numa região geralmente tão pouco aquinhoada pelas autoridades no quesito cultural. Sob a batuta de Monteiro – que presidiu o Inepac estadual por quase 10 anos – a Prefeitura já editou um bonito livro contando a história da Estrada Real do Comércio, que, segundo ele, tem seus trechos mais íntegros na região da Baixada, ao contrário do que muitos pensam.