Connect with us

Cidade

Toca do Baiacu: o botequim da Rua do Ouvidor, de Portugal, do NY Times, de muitos amigos e histórias


Carta do papai Noel

Marquinho, o proprietário, bebe sua cerveja na Toca do Baiacu. Fotos: Felipe Lucena

Em 2021 a Toca do Baiacu, botequim carioca que fica na Rua do Ouvidor número 41, foi tema da matéria intitulada “Samba, cachaça e ovos coloridos: pé-sujos são a essência do Rio”. Deu no NY Times. Contudo, a história do bar tem outros lugares e pessoas juntos e misturados.

Como todo botequim de respeito, a Toca do Baiacu tem prateleiras de bons causos. A própria matéria do NY Times é um deles. Marquinho Targino, de 67 anos de idade, o proprietário, contou à reportagem do DIÁRIO DO RIO como foi: “Veio um rapaz aqui dizendo que era jornalista e queria fazer uma reportagem sobre o bar. Como não sou muito simpático e meu inglês não é grande coisa, não dei muita bola. Mas ele insistiu e voltou aqui. Um dia tinha uma amiga minha que é comissária de bordo, que fala inglês, e foi conversando com ele e comigo, traduzindo. Não levei muita fé, mas logo depois foi publicado”.

A reportagem, em destaque, em uma das paredes do bar

São muitos bons causos. Certa vez, um casamento estava acontecendo na Igreja Santa Cruz dos Militares (pertinho do bar) e o noivo – um pouco cansado de esperar a noiva – foi fazer hora em uma roda de samba em frente à Toca do Baiacu. Deu tudo certo. Ele voltou para o altar, o matrimônio foi sacramentado e os pombinhos ainda foram terminar a noite no profano botequim.

“Muitas histórias acontecem perto do natal. Parece que nessa época do ano, os capetinhas atentam“, disse Marquinho recordando alguns episódios que as paredes da Toca vão guardar na memória.

Uma dessas situações que presenteiam os natais na Toca do Baiacu foi a seguinte: dois clientes, bem arrumados, cheios de sacolas de compras de fim de ano, tomaram um banho porque não confiaram em um garçom que avisou que ia cair água do toldo mesmo estando um belo dia de sol. Havia chovido horas antes e a cobertura enquanto era ajustada pelo funcionário ainda estava molhada e soltou para baixo o líquido que passarinho bebe. Não foi por falta de conselho.

Algumas histórias são impublicáveis. Sobretudo as que envolvem os amigos ilustres da Toca do Baiacu. Aliás, são muitos parceiros importantes. Jornalistas boêmios como Alvaro Costa e Silva (o Marechal), Ruy Castro, Xico Sá e tantos outros reforçam as linhas do rico cardápio.

O cartunista Cássio Loredano, um dos amigos da Toca, presenteou o botequim com alguns desenhos originais para ajudar a pagar os custos durante a pandemia de covid-19.

Do banco para o banco do bar

Marquinho Targino fez carreira trabalhando em bancos, no sistema financeiro. Começou, garoto pobre cria do Rio Cumprido, como contínuo e foi mudando de cargos. Hoje é pai de dois filhos. “Eles estavam fora do Brasil. Um na Inglaterra e outro no Mato Grosso”.

“Eu comecei de calça curta no Itaú da Praça Pio X, em oito de julho de 1974. E por acaso, ou por obra do destino, eu caí como boy na mesa de operações do mercado aberto. Eu não sabia nem o que que significava aquilo. Depois fui saber que ali era o coração do banco. Fui galgando posições até chegar ao comando da mesa de operações”, recorda o hoje proprietário da Toca do Baiacu.

Na região da Praça XV, Rua do Mercado, Ouvidor e arredores havia uma grande concentração de bancos, além da bolsa de valores. Marquinho trabalhava pela área e sempre tomava umas cervejas onde hoje é a Toca do Baiacu.

Nessa época, era um botequim chamado Ninense que funcionava na Ouvidor 41. O português que tomava conta se chamava Manoel Davi. Segundo Marquinho, ele odiava ser chamado pelo primeiro nome.

Detalhes da Toca do Baiacu

No início dos anos 2000, Manoel, quer dizer, Davi, estava prestes a vender o boteco para uma doceria. Cliente fiel há muitos anos, Marquinho se mobilizou: “Porra, ia acabar com nosso parquinho“.

“Falei com um amigo que, digamos assim, tomava conta da minha vida financeira e fizemos as contas para fazer uma proposta ao Davi para eu assumir o bar“. O português aceitou e perguntou ao Marquinho se ele queria ficar com alguma coisa do estabelecimento. A resposta foi: “Pode levar tudo, inclusive as baratas“.

O Ninense era um pé-sujo bem pé-sujo. O nome fazia referência a uma freguesia portuguesa localizada em Vila Nova de Famalicão, no distrito de Braga. Em 2005, Marquinho inaugurou a Toca do Baiacu. O resto é história.

O estandarte do bloco que desfilava pelas ruas do Centro do Rio

De lá para cá, nessas duas décadas, o botequim gerou bloco de carnaval, times de futebol, rodas de samba – os hoje badalados Samba da Volta e da Ouvidor começaram na Toca. Engrossa o caldo da cultura carioca. Ao lado da Folha Seca, foram inúmeros eventos voltados para as coisas nossas do Rio de Janeiro. Vide a matéria do NY Times, que falou das festas na Rua do Ouvidor, das cervejas, dos ovos coloridos e de tudo que só um bom pé-sujo pode oferecer.

O nome veio de um bullying

Marquinho, que diz que não gosta muito de falar, contou que a Toca do Baiacu ganhou esse nome porque, ainda nos tempos de Ninense, um garçom tinha uma barriguinha, era fanho, e ficava irritado quando era sacaneado por isso.

“Antigamente, a gente até podia brincar. Eu gostava de fazer um bullying com ele. Orlandinho era o nome dele. Depois, ele quase veio trabalhar aqui, mas acabou não acontecendo. Eu sempre era o último a sair do bar. Era um balcão cumprido, eu ficava em pé tomando minha cerveja. O Davi sempre fechava às nove da noite e o Orlandinho vinha com uma leiteira de hotel de dois litros, cheia de durepoxi no fundo, enchia de água e vinha lavando o bar. Na época, não existia o banheiro feminino ainda, era só um mictório muito fedorento, um chão de cerâmica. Não tinha muito espaço. Então, ele jogava água no chão lá de cima e vinha puxando com o rodo. Quando chegava na porta, a água já tinha acabado. Ela evaporava, sumia. Nesse dia, estava muito calor, Orlandinho ia subindo a escada e foi falando ‘vambora, vambora’ [Marquinho imita alguém fanho], e eu falei para ele ‘vambora é o caralho. Vá lavar essa bunda’. Nessa, chamei ele de peixinho de vala. Então, ele levantou a camisa, uma camiseta encardida, já se trocando para ir embora e mostrou a barriga. Aí, comecei a falar que ele não era peixinho de vala e sim um baiacu. Falei ‘vem cá, meu baiacuzinho, vem cá’. Ele ficou puto, me mandou tomar no cu. Aí, eu pedi ao seu Davi que ele me emprestasse uma folha de papel. Ele me deu aquele papel de embrulhar cigarro, o caderno dele eram aquelas folhas, português adorava juntar aquilo para escrever. Comecei a desenhar um baiacu”.

Tudo isso aconteceu um ano antes de Marquinho assumir o bar. O nome ficou em homenagem ao garçom Orlandinho.

O desenho hoje é o sómbolo da Toca do Baiacu. O peixe leva elementos em referência a Orlandinho. O short de jogador de futebol (o garçom dizia que era bom de bola), a barriguinha cheia, a cerveja na mão e o par de chifres na cabeça.

“No bar era cheio de propaganda, Brahma, Antartica, Skol. Quando olhei, vi uma da Caracu, que é um touro com chifres. Transportei o chapéu do touro para o meu boneco, no rascunho do desenho. Mostrei pro Orlandinho. Ele ficou brabo, falou que eu estava chamando ele de corno, ameaçou me processar. Eu disse para ele que não era corno e sim um touro, um bicho forte pra cacete”, recordou Marquinho.

Depois, o desenho foi colorido por uma mosaicista – Marquinho é daltônico. O mural que decora o botequim foi um presente do dentista do proprietário, mais um dos amigos da Toca do Baiacu.

‘Futuro incerto não sabido’

Marquinho revela que andou meio desanimado. Ele reclama da falta de apoio do Poder Público para os estabelecimentos antigos do Centro da Cidade. “Esse Reviver [se referindo ao programa da Prefeitura] só olha para os novos espaços que abriram aqui na região”, afirma. O excesso de multas recebidas também atrasam a caminhada da Toca do Baiacu. “É muita sacanagem que fizeram comigo aqui“, diz e relembra que levou uma punição por colocar mesas e cadeiras na rua. O problema é que a quantidade de assentos citada no documento “daria para enfileirar daqui até a Baía de Guanabara, nem teria como eu ter isso tudo”.

O Centro da cidade mais vazio, com menos empresas após a pandemia é outra questão que pesa. Além da gourmetização dos bares do Rio de Janeiro e a fama de alguns estabelecimentos temáticos e da moda que Marquinho classifica como “babaquice“.

Carioca gosta de botequim“, pontua Marquinho. Sobre o futuro da Toca, ele fala que “é incerto e não sabido. Parece que aqui está na pauta de imóveis para desapropriação. Isso seria apagar a história de um bar de mais de 80 anos de existência“.

Marquinho explica que o imóvel tem muitos herdeiros, com os quais ele não tem contato. A situação o impede de comprar, fazer obras. “Fico na corda bamba, fugindo da pica”.

Meus filhos estão criados. Na falta do que fazer, vou ficando aqui. Tá tão fácil beber aqui”, fecha a conta Marquinho e destaca que tem uns amigos dele e da Toca que têm interesse em manter o botequim aberto caso a corda bamba balance ainda mais. A clientela agradece.

Receba notícias no WhatsApp e e-mail



Fonte

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *