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William Siri: Rio precisa retomar compromisso com o reflorestamento

Este ano, o Brasil será sede da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP). No Rio, a Prefeitura tenta se mostrar alinhada à agenda ambiental, mas a realidade é outra. Nosso mandato se reuniu com os mutirantes do programa de reflorestamento após manifestação em frente à Prefeitura. Eles relataram atrasos no pagamento, corte de 25% no auxílio, falta de equipamentos e fechamento de 14 frentes de trabalho, que resultou no desligamento de 64 trabalhadores sem diálogo.
Criado nos anos 1980, o Mutirão Reflorestamento é símbolo da recuperação da cobertura vegetal e proteção contra enchentes e deslizamentos. Mas o programa tem enfrentado descompassos. Isto porque grandes obras avançam sobre áreas verdes, enquanto as frentes de reflorestamento encolhem. O Decreto 48.481/2021 agravou esta situação ao transferir os licenciamentos ambientais da Secretaria de Meio Ambiente e Clima (SMAC) para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a mesma que aprova grandes empreendimentos.
Nosso mandato analisou o orçamento e identificou retrocessos. Entre 2018 e 2020, a média anual executada foi de R$ 14 milhões. Já no governo Paes, houve uma redução de 36% nesse valor. Verificamos que até 10 de setembro de 2025, foram empenhados apenas R$ 5,4 milhões. É importante destacar que, embora a previsão orçamentária inclua tanto a consolidação quanto a manutenção das áreas reflorestadas, os recursos têm sido aplicados exclusivamente na manutenção. Além disso, as ações de reflorestamento da SMAC dependem majoritariamente de royalties do petróleo. Em 2024, o município arrecadou R$ 890 milhões em royalties, mas menos de 1% desse montante foi destinado ao reflorestamento.

Fonte: Controladoria Geral do Município e Portal Contas Rio.
Outro ponto de crítica é a dependência quase exclusiva das medidas compensatórias e a ausência de transparência na execução destas compensações ambientais. Visto que não há clareza sobre a contrapartida efetiva do setor imobiliário, apesar de seu avanço sobre áreas verdes. Além disso, nesta modalidade, árvores antigas e adaptadas são substituídas por mudas frágeis, que dificilmente sobrevivem sem acompanhamento técnico.
O corte de recursos para o reflorestamento não é um caso isolado, isto porque, também observamos queda acumulada de 27% no orçamento da própria Secretaria de Meio Ambiente e Clima ao longo dos últimos 12 anos. O resultado é uma política ambiental frágil, cada vez mais subordinada aos interesses do mercado.
Num contexto de emergência climática, a vegetação urbana é questão de sobrevivência, sobretudo para as periferias mais vulneráveis. Em material publicado em 2019, mais de 60% das áreas reflorestadas da cidade estavam nos estágios I e II, que são fases que ainda precisam de um cuidado mais ativo dos mutirantes. Ou seja, a diminuição de orçamento pode gerar retrocesso nos resultados de um programa tão importante colocando em risco décadas de esforço coletivo.
Enquanto aposta em drones para lançar sementes em áreas degradadas, a Prefeitura desvaloriza o trabalho humano dos mutirantes, que garante regeneração, emprego e educação ambiental. Vale salientar que a proposta pode soar inovadora e tecnológica, mas especialistas alertam que muitas sementes lançadas em solos compactados ou cobertos por gramíneas não germinam. Às vésperas da COP, o Rio deveria ser vitrine de boas práticas, mas expõe abandono e contradição. Não há sustentabilidade possível sem investir em quem mantém viva a floresta urbana há 40 anos.
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