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Economia

OPINIÃO. Confiança, o ativo que o Brasil maltrata


Carta do papai Noel

“Commerce and manufactures can seldom flourish long in any state in which there is not a certain degree of confidence in the justice of government.” — Adam Smith

O Brasil não é um país pobre em recursos. É um país pobre em confiança.

Desde Pero Vaz de Caminha repetimos a lenda da abundância: “em se plantando, tudo dá”. Minério dá. Terra dá. Sol dá. Água dá.

O que não dá é previsibilidade.

País rico não é o que tem mais recursos. É o que tem regras nas quais as pessoas acreditam.

Confiança é saber que a regra de hoje valerá amanhã. Que contratos serão cumpridos. Que a lei não muda conforme o humor do poder. É saber que juiz julga — não governa.

Rule of law não é teoria acadêmica. É o seguinte: ninguém está acima da regra, incluindo o próprio governo e os magistrados.

Quando isso funciona, o capital entra. Quando falha, cobra mais — ou vai embora.

O investidor não discute moralidade. Ele calcula.

Se percebe decisões politizadas ou casuísticas, adiciona um prêmio de risco. Se percebe que a regra pode ser torcida, adiciona outro. Se conflitos de interesse são tolerados, adiciona mais um.

Em algum momento, a conta não fecha.

O Brasil não sofre apenas de déficit fiscal. Sofre de déficit institucional.

Quando cargos públicos passam a ser vistos como instrumentos de poder pessoal e renda ampliada, a confiança diminui.

Quando decisões judiciais parecem imprevisíveis ou seletivas, a confiança diminui.

Quando conflitos de interesse são tratados como detalhe burocrático, a confiança diminui.

Confiança não desaparece de uma vez. Vai sendo corroída. Primeiro tolera-se o pequeno desvio. Depois normaliza-se o conflito.

Depois racionaliza-se o abuso.

A degradação nunca chega gritando. Ela chega sendo aceita.

Basta observar episódios recentes envolvendo relações entre poder político, sistema financeiro e instituições públicas. Mesmo quando os fatos ainda estão sendo esclarecidos, a simples aparência de promiscuidade institucional já é suficiente para produzir o efeito mais corrosivo possível: a dúvida.

Um país pode sobreviver a inflação. Pode sobreviver a crises externas. Até a governos ruins.

O que ele não sobrevive é à sensação permanente de que a regra não vale.

Sem confiança, o custo do capital sobe. Com capital caro, o investimento cai. Sem investimento, não há crescimento.

Sem crescimento, não há prosperidade.

O resto é discurso.

Confiança não aparece no balanço de um país. Mas quando desaparece, todos os números pioram.

Adam Smith já sabia disso há quase 250 anos.

 

Mateus Bandeira é conselheiro de administração, ex-CEO da Falconi e ex-presidente da Oi e do Banrisul.




Mateus Bandeira






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