A aposentada Maria José de Assis, 59, começou a perceber algo estranho no fim de 2023. As pontas dos dedos amanheciam dormentes, as mãos inchavam e o formigamento subia pelo braço. “Parecia que ia rasgar por dentro, uma dor que não dava para suportar”, lembra. À noite, os sintomas pioravam e a impediam de dormir.
Dormência, formigamento e dor na mão que pioram à noite podem indicar síndrome do túnel do carpo, diagnóstico que a aposentada recebeu em 2024. A condição causada pela compressão do nervo mediano no punho é uma das mais frequentes entre as doenças da mão, afirma João Belloti, ortopedista e chefe do serviço de residência em cirurgia da mão no Hospital Alvorada Moema.
De janeiro a novembro de 2025, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou 501.450 atendimentos relacionados à síndrome do túnel do carpo, sendo 410.919 em mulheres e 90.531 em homens, segundo o Ministério da Saúde. Os números não correspondem ao total de pessoas atendidas, já que um mesmo paciente pode passar por mais de um atendimento.
Ainda pouco conhecida pela população, a condição também levou ao afastamento de 44.270 trabalhadores em 2025, um aumento de 204,3% em relação a 2021. Segundo o Ministério da Previdência Social, a síndrome do túnel do carpo motivou 136.153 concessões de benefícios por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) nos últimos quatro anos, das quais 86% foram destinadas a mulheres.
Belloti, que também é professor de Medicina na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que a síndrome do túnel do carpo costuma ser diagnosticada tardiamente porque os pacientes não reconhecem os sintomas e passam por vários médicos antes de descobrir a doença.
A síndrome também pode ser confundida com outras condições, como problemas cardíacos, incluindo infarto, além de doenças vasculares periféricas e doenças reumatológicas, como artrite reumatoide, que também causam dor, dormência ou formigamento nos membros superiores.
Segundo Belloti, a doença é causada pela compressão do nervo mediano na região do punho. Esse nervo passa por um canal estreito, formado por ossos e um ligamento espesso, junto com tendões responsáveis pelo movimento dos dedos. Quando o espaço do túnel diminui, o nervo é comprimido, provocando um conjunto de sinais e sintomas.
O nervo mediano é responsável pela sensibilidade dos dedos e pela força da mão. Com a compressão progressiva e diagnóstico tardio, a síndrome do túnel do carpo pode trazer consequências importantes e, em alguns casos, irreversíveis.
Com a progressão do quadro, pode ocorrer uma atrofia da musculatura da mão, especialmente a responsável pela força de preensão (capacidade da mão de segurar, apertar e manter objetos com firmeza), além da diminuição da sensibilidade nos dedos, explica Mario Vieira Guarnieri, ortopedista do Einstein Hospital Israelita. Esse quadro pode ser irreversível, mesmo com cirurgia.
“Uma das queixas é que o paciente tem dificuldade de colocar um brinco, abotoar uma camisa, segurar uma xícara”, diz.
Belloti explica que a síndrome do túnel do carpo é uma condição multifatorial. Os principais fatores de risco são o desenvolvimento de atividades profissionais com movimentos repetitivos e com o punho em flexão, a obesidade e alterações hormonais no fim da gravidez, como o inchaço, ou no climatério e na menopausa, com ganho de peso e diminuição da elasticidade dos ligamentos.
Também contribuem para o surgimento da síndrome doenças sistêmicas, principalmente diabetes e hipotireoidismo, além de doenças reumatológicas e outras condições que provocam aumento de volume no túnel do carpo, como as sinovites.
Maria José diz que os sintomas começaram de forma leve, com dormência nas pontas dos dedos, mas foram piorando com o tempo e a dor passou a subir pelo braço. O diagnóstico veio depois de seis meses do início dos sintomas.
“Era uma dor por dentro, parecia que ia rasgar o braço”, lembra. À noite, o desconforto era ainda maior. Ela não conseguia dormir de um lado só, porque o braço adormecia e começava a doer, obrigando-a a virar de posição o tempo todo.
Durante o dia, o principal incômodo era a perda de sensibilidade nas pontas dos dedos. Ela conta que, às vezes, tentava coçar alguma parte do corpo e não sentia direito o toque. Fez cirurgia nas duas mãos para descomprimir o nervo.
Michele Duarte, 42, ajudante de produção, acredita que desenvolveu o quadro depois de passar meses usando andador após uma cirurgia nas costas, quando fazia muito esforço com as mãos. Os sintomas afetaram o trabalho na linha de produção.
“As tarefas exigiam movimentos repetitivos e força para manusear peças, mas eu não conseguia segurar objetos com firmeza. Eu achava que estava segurando, mas a mão não tinha força suficiente”, conta.
Em alguns dias, a dor era tão intensa que precisava pedir afastamento; em outros, trocava de função para reduzir o esforço nas mãos.
Depois de cerca de um ano de tratamento, ela fez a cirurgia da mão direita, em março de 2024, e conseguiu voltar ao trabalho dois meses depois, já com a força recuperada. Com o tempo, os sintomas apareceram também na mão esquerda, e ela passou por um segundo procedimento em dezembro de 2025.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é principalmente clínico, feito por um médico especialista a partir dos sintomas e do exame físico. Para confirmação, podem ser solicitados exames complementares, como a ultrassonografia do punho, que mede o diâmetro do nervo mediano, e a eletroneuromiografia, que avalia a função do nervo.
“A eletroneuromiografia é um exame que comprova o diagnóstico, mas é um exame dolorido e que hoje tem sido substituído pelo ultrassom”, aponta Guarnieri.
Nas fases iniciais, o tratamento costuma ser clínico, com uso de órtese ou tala noturna para manter o punho em posição neutra e aplicação de corticoide, preferencialmente por infiltração no local da compressão. Fisioterapia, acupuntura e outras medidas gerais também podem ajudar, segundo Belloti.
Quando o quadro é persistente ou avançado, a cirurgia no punho para liberar o nervo mediano, que está comprimido dentro do túnel do carpo, é indicada e costuma resolver o problema. A recidiva após a cirurgia é rara.
Guarnieri afirma que a escolha entre tratamento clínico ou cirúrgico depende principalmente da idade e da causa do problema. Em pessoas mais jovens, o quadro costuma estar ligado a processos inflamatórios e responde melhor a medidas conservadoras. Já em pacientes mais velhos, a compressão do nervo tende a ter relação com fatores hormonais, e o tratamento não cirúrgico costuma ter menor eficácia.



