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Saúde

Contar calorias, monitorar sono, gerenciar gastos: quando o monitoramento pode se tornar armadilha?


Carta do papai Noel

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Você acorda e verifica seu smartwatch para saber como foi o sono. Toma café da manhã e lista o que comeu em um aplicativo que conta calorias. Vai para a academia, mas nunca sem o relógio —afinal, você precisa marcar o tempo do treino, a frequência cardíaca e, no final, fazer check-in no GymRats (aquele app de competição). Na volta para casa, faz uma compra na farmácia e anota o gasto em uma planilha.

Monitorar esses diferentes dados (calorias, sono, exercício, finanças…) é uma forma de tentar organizar o caos do dia a dia. Especialistas afirmam, porém, que a prática torna-se prejudicial quando métricas substituem percepções e sensações humanas.

Deixo meu próprio exemplo: há anos, uso um smartwatch para registrar a prática de exercícios. Uma vez, notei que ele estava sem bateria quando cheguei na academia e pensei: “o que faço agora? Volto para casa?”

Não voltei, é claro, porque não faço exercícios somente para registrá-los no relógio. Faço pelo meu bem-estar, pela minha saúde e, principalmente, porque gosto. Ter um breve momento para me questionar e lembrar disso foi importante.

O automonitoramento nasce de uma intenção positiva: a busca do cérebro por previsibilidade, estabilidade e evolução em um mundo cheio de informações, diz o psicólogo e neurocientista Rafael Nunes.

“O problema é quando deixa de ser uma ferramenta de auxílio, de controle da situação, de acompanhamento e se torna uma vigilância constante sobre si mesmo”, complementa a psicóloga Larissa Fonseca, especialista clínica em ansiedade, crise de pânico, burnout e sono.

O perigo acontece quando o aplicativo (ou a planilha, o relógio…) passa a ser autoridade máxima sobre como você se sente. Em vez de basear decisões em sensações ou valores próprios, uma métrica externa passa a validar a evolução, o prazer e a sensação de bem-estar.

As consequências de deslocar o controle são:

  • Perda da autopercepção: o silenciamento dos sinais biológicos (fome, cansaço, sono) ou de sensações (satisfação, frustração) em favor do que os dados apontam.

  • Aumento da autocrítica: o dado é interpretado como uma sentença de insuficiência (“eu não fui bom o suficiente hoje”).

  • Rigidez cognitiva: a perda da espontaneidade e a dificuldade em agir sem a mediação de um dispositivo ou uma ferramenta.

Esse cenário alimenta principalmente quadros de ansiedade. “A pessoa ansiosa é a que tenta antecipar as situações e controlar qualquer possibilidade de erro. E ela sempre vai enxergar a falha”, explica Larissa.

O sono é uma das atividades que mais sofre com o excesso de monitoramento, segundo os especialistas, já que é uma função biológica que exige relaxamento. Tentar controlá-lo gera ansiedade, o que atrapalha o cérebro na hora de descansar. O resultado é um sono de pior qualidade.

  • “A sua sensação de ter dormido bem vale muito mais do que o relógio dizer pra você que você descansou”, diz a especialista em sono.

Quais os sinais de alerta? Identificar o limite entre o controle saudável e o excessivo é importante. Veja exemplos:

Sensação de culpa e fracasso: não é normal sentir um mal-estar profundo e persistente por não bater metas.

“Percebo na clínica uma sensação constante de insuficiência. Um exercício que se torna compulsivo, uma relação difícil com a comida e com o sono, e aí o comportamento obsessivo vai aumentando”, relata Larissa.

Foco na recompensa final: se o prazer está na notificação de conclusão (dar um “check”) e não na jornada, isso vai gerar uma satisfação que dura pouco.

“O sistema de recompensa é efêmero”, explica Rafael Nunes. É como comer um hambúrguer: o prazer passa assim que ele acaba. Se a busca é apenas pela nota ou recompensa do app, você precisará de metas cada vez maiores para sentir o mesmo prazer.

Qual é a saída? Recuperar sua autonomia e não ficar refém dos dados. É preciso ter clareza de quais são seus verdadeiros desejos e vontades, segundo Nunes.

Busque ajuda psicológica, se preciso. Não apenas para identificar o problema, mas também para que um profissional possa guiá-lo no processo de autoconhecimento.

Fazer um “jejum” das ferramentas de monitoramento pode ajudar. Estabeleça períodos em que você realiza exercícios ou dorme sem qualquer dispositivo de medição. Observe se a sua satisfação com a atividade muda sem o registro.

E, por fim, valorize seus sentimentos e percepções. Antes de contabilizar calorias do seu almoço, reflita se você se sentiu bem após comer. Ou, ao acordar, veja se sente que teve uma boa noite de sono ou não.

“Acompanhamento [de hábitos ou métricas] é importante, não como um controle, mas como uma evolução do quantitativo com o qualitativo. Se o qualitativo é deixado de lado, o quantitativo perde sua razão nas primeiras dificuldades”, diz Nunes.


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